Unidos da Tijuca 2026: veja o enredo e cante o samba
02/02/2026
(Foto: Reprodução) Cartaz do enredo da Unidos da Tijuca para 2026
Reprodução
A Unidos da Tijuca é a última escola da segunda-feira (16).
O desfile deve começar entre 2h30 e 3h.
O enredo é “Carolina Maria de Jesus”.
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Enredo e samba: Unidos da Tijuca homenageia a escritora Carolina Maria de Jesus
O enredo
Antes de ser conhecida pelo mundo, Carolina Maria de Jesus se chamava Bitita. Era uma menina negra, nascida no interior de Minas Gerais, num Brasil ainda marcado pelas feridas da escravidão recém-abolida. Cresceu ouvindo histórias dos mais velhos, aprendendo com a fala, com a escuta e com a sabedoria que não vinha dos livros, mas da memória e da tradição.
Desde cedo, Bitita se encantou pelas palavras. Mesmo sem acesso fácil à escola, queria entender as letras, os nomes das coisas, os sentidos escondidos nos livros. Quando percebeu que, para existir diante do mundo, precisava assinar o próprio nome, Bitita virou Carolina. Nascia ali o desejo de ser escritora.
Já moça, Carolina entendeu que a liberdade prometida aos negros não era real. Trabalhou na roça, sofreu violência e preconceito, foi presa e humilhada apenas por carregar um dicionário. Aquele episódio marcou sua vida e a fez deixar a terra natal em busca de um novo começo.
O caminho levou Carolina a São Paulo. A cidade grande prometia oportunidades, mas ofereceu dureza. Sem emprego fixo, foi morar na favela do Canindé. Para sobreviver, catava papel, ferro e restos pelas ruas. Com o mesmo gesto, catava também histórias. Nos cadernos encontrados no lixo, escrevia sobre a fome, a miséria, o racismo, a violência e o cotidiano da favela.
Foi assim que nasceu “Quarto de Despejo”, livro que revelou ao Brasil uma realidade que muitos fingiam não ver. Carolina virou conhecida como “a favelada que escrevia”. Sua obra incomodou, porque denunciava políticos, expunha desigualdades e desmontava a imagem romantizada da pobreza.
O sucesso, porém, veio com limites. Esperavam que Carolina falasse apenas da favela e da miséria. Quando tentou ir além, escrever outras histórias, peças e poemas, foi deixada de lado. A escritora negra, fora do papel que lhe reservaram, passou a ser silenciada.
Mesmo assim, Carolina permaneceu. Sua escrita resistiu ao apagamento e continuou viva nas páginas, nas memórias e nas inspirações que deixou. Sua linguagem misturava o português das ruas com a força da literatura, mostrando que o Brasil também se escreve a partir da margem.
É essa trajetória que a Unidos da Tijuca leva para a Avenida em 2026. O desfile conta a história de uma mulher que transformou palavra em sobrevivência, denúncia em literatura e vida em legado. Carolina Maria de Jesus, com nome e assinatura no lugar certo, como ela sempre exigiu.
Tijuca canta Carolina Maria de Jesus; veja o samba
Cante o samba
Autores: Lico Monteiro, Samir Trindade, Leandro Thomaz, Marcelo Adnet, Marcelo Lepiane, Telmo Augusto, Gigi da Estiva e Juca
Intérprete: Marquinhos Art’Samba
Muda essa história, Tijuca!
Tira do meu verso a força pra vencer
Reconhece o seu lugar e luta
Esse é nosso jeito de escrever
Eu sou filha dessa dor
Que nasceu no interior de uma saudade
Neta de Preto Velho
Que me ensinou os mistérios
Bitita cor, retinta verdade
Me chamo Carolina de Jesus
Dele herdei também a cruz
Dele herdei também a cruz
Olhe em mim, eu tenho as marcas
Me impuseram sobreviver
Por ser livre nas palavras
Condenaram meu saber
Fui a caneta que não reproduziu
A sina da mulher preta no Brasil
Os olhos da fome eram os meus
Justiça dos homens não é maior que a de Deus
Meu quarto foi despejo de agonia
A palavra é arma contra a tirania
Sonhei sobre as páginas da vida
Ilusões tolhidas no sistema algoz
Que tenta apagar nossa grandeza
Calar a realeza que resiste em nós
Dos salões da burguesia aos barracos do Borel
Onde nascem Carolinas
Não seremos mais os réus
Por tantas Marias que viram seus filhos crucificados
Nas linhas da vida, verbo na ferida, deixei meu legado
Meu país nasceu com nome de mulher
Sou a liberdade, mãe do Canindé
Ficha técnica
Fundação: 31 de dezembro de 1931
Cores: 🔵🟡Azul e Amarelo
Presidente: Fernando Horta
Carnavalesco: Edson Pereira
Diretores de Carnaval: Fernando Costa e Elisa Fernandes
Intérprete: Marquinhos Art’Samba
Mestre de Bateria: Casagrande
Rainha de Bateria: Mileide Mihaile
Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Matheus Miranda e Lucinha Nobre
Comissão de Frente: Bruna Lopes e Ariadne Lax
A rainha de bateria da Unidos da Tijuca, Mileide Mihaile, na festa dos 94 anos da escola
Paulo Tauil/ AgNews