Sem neve, sem Jogos? Aquecimento global ameaça Olimpíadas de Inverno

  • 08/02/2026
(Foto: Reprodução)
Brasil vai ter recorde de atletas nos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão e Cortina Assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno é uma descarga de adrenalina, com atletas descendo pistas de esqui cobertas de neve, pistas de luge e atravessando o gelo em altíssima velocidade e com precisão. Quando os primeiros Jogos Olímpicos de Inverno foram realizados em Chamonix, na França, em 1924, todas as 16 modalidades aconteceram ao ar livre. Os atletas dependiam da neve natural para as pistas de esqui e de temperaturas abaixo de zero para as pistas de gelo. Quase um século depois, em 2022, o mundo assistiu a esquiadores competirem em pistas com 100% de neve produzida artificialmente perto de Pequim. Pistas de luge e saltos de esqui têm sistemas próprios de refrigeração, e quatro das modalidades originais agora são realizadas em ambientes fechados: patinação artística, patinação de velocidade, curling e hóquei são disputados em instalações com temperatura controlada. A inovação tornou possíveis os Jogos de Inverno de 2022 em Pequim. Antes das Olimpíadas de Inverno de 2026, no norte da Itália, onde a neve ficou abaixo da média no início da temporada, autoridades mandaram construir grandes reservatórios próximos às principais arenas para garantir água suficiente para a produção de neve artificial. Mas a fabricação de neve tem limites em um clima em aquecimento. À medida que as temperaturas globais sobem, como serão os Jogos de Inverno daqui a um século? Eles ainda serão possíveis, mesmo com novas tecnologias? Anéis olímpicos na neve antes dos Jogos Olímpicos de Inverno Milão–Cortina 2026 Fabrizio Bensch/Reuters Antigas cidades-sede que ficariam quentes demais A temperatura média diurna em fevereiro nas cidades que sediaram os Jogos de Inverno tem aumentado de forma constante desde as primeiras competições em Chamonix, subindo de 33 graus Fahrenheit (0,4 °C) entre as décadas de 1920 e 1950 para 46 °F (7,8 °C) no início do século XXI. Em um estudo recente, cientistas analisaram as sedes de 19 Olimpíadas de Inverno passadas para avaliar como cada uma poderia resistir às mudanças climáticas futuras. Os pesquisadores concluíram que, até meados do século, quatro antigas cidades-sede — Chamonix; Sochi, na Rússia; Grenoble, na França; e Garmisch-Partenkirchen, na Alemanha — já não teriam um clima confiável para sediar os Jogos, mesmo no melhor cenário climático considerado pelas Nações Unidas, que pressupõe cortes rápidos nas emissões de gases de efeito estufa. Se o mundo continuar queimando combustíveis fósseis em níveis elevados, Squaw Valley, na Califórnia, e Vancouver, no Canadá, também deixariam de ter condições climáticas confiáveis para receber os Jogos de Inverno. Até a década de 2080, segundo o estudo, o clima em 12 das 22 antigas sedes seria instável demais para sediar provas ao ar livre dos Jogos de Inverno; entre elas, Turim, na Itália; Nagano, no Japão; e Innsbruck, na Áustria. Em 2026, há agora cinco semanas entre os Jogos Olímpicos de Inverno e os Jogos Paralímpicos, que vão até meados de março. Os países-sede são responsáveis por ambos os eventos, e algumas sedes podem ter cada vez mais dificuldade para manter neve suficiente no solo, mesmo com capacidade de produção artificial, à medida que as temporadas de neve ficam mais curtas. As condições ideais para produzir neve hoje exigem uma temperatura de ponto de orvalho — combinação de frio e umidade — em torno de 28 °F (-2 °C) ou menos. Mais umidade no ar faz com que neve e gelo derretam mesmo em temperaturas mais baixas, o que afeta tanto a neve nas pistas de esqui quanto o gelo em pistas de bobsled, skeleton e luge. Como cientistas da neve e da sustentabilidade no Colorado e também esquiadores apaixonados, temos acompanhado esses desdobramentos e estudado o impacto do clima nas montanhas e nos esportes de inverno que amamos. As condições variam conforme o lugar e o ano O clima da Terra será, em média, mais quente nas próximas décadas. Ar mais quente pode significar mais chuva no inverno, especialmente em altitudes mais baixas. Em todo o mundo, a neve tem coberto áreas cada vez menores. A baixa precipitação de neve e as temperaturas elevadas tornaram particularmente fraco o início da temporada de inverno de 2025-26 nas estações de esqui do Colorado. No entanto, as mudanças locais variam. Por exemplo, no norte do Colorado, a quantidade de neve diminuiu desde a década de 1970, mas a queda ocorreu principalmente em altitudes mais elevadas. Um clima futuro também pode ser mais úmido, o que afeta a produção de neve e pode prejudicar pistas de bobsled, luge e skeleton. Dos 16 esportes dos Jogos de Inverno atualmente, metade é afetada pela temperatura e pela neve: esqui alpino, biatlo, esqui cross-country, esqui estilo livre, combinado nórdico, salto com esqui, esqui de montanha e snowboard. E três são afetados pela temperatura e pela umidade: bobsled, luge e skeleton. Esquiadores em Livigno, na Itália, que receberá provas de snowboard e esqui estilo livre da Olimpíada de Inverno Milano-Cortina 2026. REUTERS/Yara Nardi A tecnologia também muda Avanços tecnológicos ajudaram os Jogos de Inverno a se adaptar a algumas mudanças ao longo do último século. O hóquei foi para ambientes fechados, seguido pela patinação. Pistas de luge e bobsled passaram a ser refrigeradas na década de 1960. Os Jogos de Inverno de Lake Placid, em 1980, nos Estados Unidos, usaram neve artificial para complementar a neve natural nas pistas de esqui. Hoje, instalações de esqui indoor tornam possível esquiar o ano inteiro. O Ski Dubai, aberto desde 2005, tem cinco pistas em uma encosta equivalente à altura de um prédio de 25 andares dentro de um complexo ligado a um shopping center. Estações de esqui também têm usado o chamado “snowfarming”, técnica de coleta e armazenamento de neve. O método não é novo, mas, com a diminuição das nevascas e o aumento das dificuldades para produzir neve artificial, mais resorts vêm guardando neve remanescente para se preparar para o inverno seguinte. Mas produzir neve e mantê-la congelada exige energia e água — e ambos se tornam desafios em um mundo mais quente. A água está se tornando mais escassa em algumas regiões. E a energia, se vier de combustíveis fósseis, contribui ainda mais para as mudanças climáticas. O Comitê Olímpico Internacional reconhece que o clima do futuro terá grande impacto nos Jogos Olímpicos, tanto de inverno quanto de verão. Também reconhece a importância de garantir que as adaptações sejam sustentáveis. Os Jogos Olímpicos de Inverno podem acabar restritos a locais mais ao norte, como Calgary, no Canadá, ou ser transferidos para altitudes mais elevadas. Visitantes em frente aos anéis olímpicos e à pista Olympia delle Tofane, sede do esqui alpino feminino em Milano-Cortina 2026, em Cortina, Itália. REUTERS/Claudia Greco/Arquivo Os Jogos de Verão também sentem a pressão do clima Os Jogos de Verão também enfrentam desafios. Temperaturas muito altas e umidade elevada podem dificultar as competições, mas esses esportes têm mais flexibilidade do que os de inverno. Por exemplo, mudar o calendário de eventos normalmente realizados no verão para outra estação pode ajudar a reduzir o impacto do calor extremo. A Copa do Mundo de 2022, normalmente disputada no meio do ano, foi realizada em novembro para que o Catar pudesse sediá-la. O que torna a adaptação mais difícil para os Jogos de Inverno é a necessidade de neve ou gelo em todas as modalidades. O futuro depende da resposta às mudanças climáticas Em tempos incertos, as Olimpíadas oferecem uma forma de o mundo se reunir. O público se encanta com feitos atléticos, como Jean-Claude Killy vencendo as três provas do esqui alpino em 1968, e com histórias de superação, como a equipe jamaicana de bobsled em 1988, que competiu muito além das expectativas. Os esportes ao ar livre dos Jogos de Inverno podem parecer muito diferentes no futuro. O quanto diferentes serão dependerá, em grande parte, de como os países responderem às mudanças climáticas. Este texto atualiza um artigo originalmente publicado em 19 de fevereiro de 2022, com informações sobre os Jogos de Inverno de 2026. Passar muito tempo sentado pode aumentar o risco cardíaco Steven R. Fassnacht é professor de Hidrologia da Neve na Colorado State University, e Sunshine Swetnam é professora assistente de Recursos Naturais na mesma universidade Este texto foi publicado originalmente no site do The Conversation Brasil. 'E se eu jogar meu celular pela janela?': O que são pensamentos intrusivos

FONTE: https://g1.globo.com/meio-ambiente/noticia/2026/02/08/sem-neve-sem-jogos-aquecimento-global-ameaca-olimpiadas-de-inverno.ghtml


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