PMs presos em operação contra o CV forjaram apreensão de drogas após acordo com chefe da facção, diz investigação
11/03/2026
(Foto: Reprodução) Polícia prende suspeitos em operação contra o Comando Vermelho
A investigação da Polícia Civil do RJ que levou à prisão de 6 policiais militares na Operação Contenção Red Legacy, nesta quarta-feira (11), aponta que os agentes forjaram uma apreensão de drogas na Zona Norte do Rio de Janeiro após um acordo com a cúpula do Comando Vermelho (CV).
De acordo com o inquérito da Delegacia de Combate ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DCOC-LD), o então comandante da 13ª UPP/16º BPM (Penha), major Hélio da Costa Silva, teria entrado em contato em 13 de março de 2025 com Washington Cesar Braga da Silva, o Grande, apontado como braço direito do traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, um dos chefões do CV.
Segundo as investigações, o major solicitou, pelo telefone, o fornecimento de entorpecentes para simular uma ocorrência policial. A justificativa apresentada, ainda de acordo com a apuração, seria a cobrança por metas de produtividade pela Coordenação de Polícia Pacificadora (CPP).
A polícia afirma que Doca autorizou a entrega do material e orientou Grande a buscar 70 quilos de maconha que já estariam separados para essa finalidade com um comparsa conhecido como Deu. A remessa teria sido complementada com outras “cargas velhas”, segundo diálogos analisados no inquérito.
O diálogo
Segundo a polícia, na extração de conversas de WhatsApp, “Deus É Fiel” é o apelido de Doca.
Grande: Major ligou, disse que se tem como fazer uma ocorrência pra ele amanhã, CPP cobrou pra ele.
Doca: Tem sim. Tem uns kl de mato. Pega lá com o Deu 70 kl de maconha e articula. Fala que é o mato que é para apreensão.
Grande: Jaé, eu separei também umas cargas velhas com Isaque. Precisa só de um carro.
Doca: Pega com o Gadernal.
Grande: Jaé, vou articular tudo, vejo como e onde vai ser e passo pro senhor!
Print da conversa entre Grande e Doca
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Encenação na Penha
A falsa apreensão ocorreu em 19 de março de 2025, na Rua Iracema 259, na Penha, a cerca de 500 metros da sede da UPP.
Para a ação, segundo a investigação, o tráfico utilizou um Tiggo roubado em 30 de janeiro de 2025, em Duque de Caxias. O carro foi abandonado no local combinado com as drogas e um simulacro de fuzil AR-15 desmontado.
No registro feito na 22ª DP, os sargentos Rodrigo Paiva Lopes e Thiago Monteiro Gomes Marcelino relataram que estavam em patrulhamento quando foram alvo de disparos efetuados por criminosos. Eles afirmaram ter revidado à “injusta agressão” com cerca de 20 disparos de fuzil calibre 7,62 mm, e que os suspeitos fugiram, abandonando o veículo com o material.
A ocorrência foi registrada como tentativa de homicídio.
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Vídeo e laudo pericial
Segundo a Polícia Civil, a versão apresentada pelos policiais não se sustentou diante das provas reunidas.
A investigação aponta que, após a apreensão, Grande enviou a Doca um vídeo mostrando os policiais exibindo a droga e o fuzil desmontado. Na mensagem, ele teria informado que o major havia “agradecido”.
Um laudo pericial posterior confirmou que a quantidade de droga apreendida — mais de 60 quilos de maconha e 2 quilos de cocaína — era compatível com o volume autorizado por Doca, segundo o inquérito.
Os policiais não preservaram o local para perícia, e o veículo foi liberado como recuperado, o que, segundo a investigação, pode ter evitado a realização de exames papiloscópicos.
Troca de favores
Para a Polícia Civil, o episódio fazia parte de um esquema para forjar legalidade e simular eficiência operacional. Em troca do fornecimento de cargas de drogas para “bater metas”, agentes públicos assegurariam tolerância e proteção às atividades do Comando Vermelho na Vila Cruzeiro.
Os envolvidos foram indiciados por tráfico de drogas, associação para o tráfico, corrupção passiva e fraude processual.
As defesas dos citados não haviam se manifestado até a última atualização desta reportagem.
Os PMs presos
Hélio da Costa Silva, major;
Leandro Oliveira Loiola;
Reuel de Almeida Silva Fernandes, capitão;
Rodrigo Paiva Lopes;
Thiago Monteiro Gomes Marcelino;
Thomás dos Santos Machado.