O que aprendi sobre adolescentes após conversar com 150 meninas de 13 a 17 anos

  • 05/05/2026
(Foto: Reprodução)
O que aprendi sobre adolescentes após conversar com 150 meninas de 13 a 17 anos BBC Um cartaz feito com canetas coloridas e colado na porta de um quarto particular anuncia: "SÓ PARA MENINAS", "Meninos não entram!" E acrescenta, travessamente: "Não se preocupem, meninos!" O cartaz está repleto de corações e estrelas coloridas. Um grupo de cerca de 12 meninas do clube juvenil DRMZ, no País de Gales, está mergulhado em um jogo de cartas quando me junto a elas em uma grande mesa redonda. A conversa flui com facilidade enquanto nos falamos e, claro, pedimos pizza. A visita faz parte da minha série About the Girls, da BBC Rádio 4. Conversei com cerca de 150 meninas, a grande maioria entre 13 e 17 anos. Nossa conversa em torno daquela mesa foi um exemplo de muitas daquelas reuniões. Espertas, faladeiras, divertidas e brilhantes, as garotas foram uma companhia magnífica e estimulante. Elas são cheias de ambição e planos para o futuro ("gostaria de ter uma geladeira onde colocar uma jarra... e de ser médica!"), de amor pelas amigas ("posso contar qualquer coisa para ela") e de uma grande consciência sobre a importância de cuidar dos familiares ("vou para o centro recarregar o carro elétrico da minha avó — adoro cuidar dela"). Catherine Carr conversou com um grupo de cerca de 12 meninas do clube juvenil DRMZ, no País de Gales BBC A conversa variava entre o jogo de cartas que estava em andamento, dramas escolares, professores de que elas gostam (ou não), coisas que haviam visto nas redes sociais e se havia fatias de pizza de mussarela suficientes para todas. A conclusão foi que sim, havia. Este projeto é uma espécie de continuação da minha outra série, About the Boys, quando também conversei com meninos adolescentes de todo o Reino Unido. A pandemia de covid-19, o movimento #MeToo e todo o barulho em torno do influenciador misógino Andrew Tate me deixaram curiosa para saber o que eles estavam pensando. Os meninos também foram uma companhia excelente: reflexivos, eloquentes e corajosos. Parecia lógico e justo repetir o experimento com as meninas. Por acaso, os arquivos de Epstein foram publicados justamente quando parti para Carmarthen, a cidade no sudoeste do País de Gales onde elas estavam. E o trabalho rapidamente ganhou senso de urgência ainda maior. O que eu não esperava era que, ao longo de todas as conversas, um tema aparecesse tantas vezes: as adolescentes ainda tendem a olhar para si próprias pelo olhar dos garotos. O mais importante é que parece haver uma séria compreensão a este respeito. Minha pergunta inicial foi "como é realmente ser uma menina em 2025/26? Digam a verdade, esqueçam a delicadeza!" E a resposta, quase invariavelmente, começava assim: "Bem, os meninos pensam/dizem/querem/sentem..." Estas conversas pareciam uma versão estranha e real do teste de Bechdel, que oferece uma medida para avaliar a representação feminina no cinema. Para ser aprovado, o filme (1) precisa ter pelo menos duas mulheres identificadas, que (2) falem entre si, sobre (3) algo que não seja um homem. Nenhuma das minhas entrevistas seria aprovada. O barulho em torno do influenciador misógino Andrew Tate foi um dos motivos que levaram ao trabalho da jornalista da BBC Catherine Carr Getty Images "Crescer como uma menina", declarou uma delas, "em grande parte, tem muito a ver com a forma como os meninos se comportam ao seu redor e o que eles estão fazendo para você". "Por isso, não existe, na verdade, uma forma de falar disso sem mencionar os meninos... e é frustrante." Mas por que esta dinâmica persiste? As meninas que conheci falaram abertamente sobre o peso das expectativas sociais baseadas no gênero, na influência dos meninos no ambiente escolar e das versões de "perfeição" feminina exibidas continuamente nas redes sociais. Elas também descreveram algo mais profundo sobre como as meninas aprendem a se comportar enquanto tentam viver pelo mundo com segurança. 'Não fazer barulho' Depois que todas as meninas de Carmarthen foram para casa, conversei com a gerente do centro juvenil, Alison Harbor. Ela ficou encantada ao ver todas falando com tanta liberdade. "Os meninos do clube se expressam bastante", segundo ela. "E contam todas as suas opiniões e pensamentos com muita segurança." "Mas, hoje, as meninas se saíram igual! Minha preocupação é que, normalmente, elas internalizam muitos dos seus problemas." As meninas não se retraíram, mas a ironia é que quase todas disseram que se comportam de forma diferente quando há meninos por perto. Elas me contaram que não querem que os meninos as vejam como "intensas demais", "barulhentas demais", "esquisitas", "chatas" ou como alguém que quer chamar a atenção. Elas disseram que os meninos podem ser barulhentos e engraçados, mas as meninas, não. E afirmaram que não querem "ocupar espaço" e que tentam ser "menores e mais silenciosas" em grupos mistos. A pesquisa da professora Ola Demkowicz indica que as expectativas em sala de aula permitem que os meninos façam barulho, mas o mesmo comportamento não é esperado das meninas Getty Images Professoras de meninas declararam que elas "mantêm a cabeça baixa" e "não fazem barulho" ou "passam sem serem detectadas". Durante sua pesquisa, a professora de psicologia da educação Ola Demkowicz, do Instituto de Educação de Manchester, na Inglaterra, conversou com mulheres jovens sobre os problemas que afetam sua saúde mental. "Sem dúvida, ouvimos de jovens mulheres que existem pressões a este respeito, o que realmente faz com que elas precisem ser educadas e respeitosas", explica a professora. "E elas sentem que as expectativas de comportamento em relação a elas são maiores", em comparação com os garotos. "Por isso, os meninos podem fazer barulho na aula, o que não é considerado problema. São meninos sendo meninos. E elas sentem que o mesmo não é permitido para elas." Demkowicz defende que a sociedade espera uma "adultificação", ou seja, que as meninas se apresentem de forma mais madura. "O que se espera é que você deve se comportar como uma pessoa adulta, sem necessariamente ser brincalhona ou expressar coisas em voz alta, nem mostrar que você luta por alguma coisa." Em outros lugares, as meninas falaram dos seus medos e das suas experiências de assédio e violência sexual. A pesquisa mais recente da organização britânica Girlguiding indicou que 68% das meninas alteram seu comportamento cotidiano para evitar assédio sexual. E praticamente todas as meninas com quem conversei contaram terem recebido comentários de cunho sexual na rua. Hannah Yelin, da Universidade Oxford Brookes, na Inglaterra, conta ter concluído, nas suas pesquisas com meninas, que elas são "devastadora e brilhantemente conscientes" de que o escrutínio que elas enfrentam, muitas vezes, é sexualizado. A pesquisadora explica que as meninas reconhecem a rapidez com que seu posicionamento é vinculado à atração que os homens podem sentir em relação a elas. E também têm consciência de que isso pode colocar sua segurança em risco. O ambiente escolar A maioria das minhas 150 entrevistas foi realizada em escolas e os dados sobre o aumento do comportamento misógino não surpreenderam as meninas. Um sindicato dos professores alertou recentemente que vem "crescendo uma crise de masculinidade" nas escolas do Reino Unido. Quase 25% das professoras pesquisadas afirmaram terem sido objeto de abusos misóginos por algum aluno no último ano. As meninas contaram que, às vezes, os meninos as menosprezam, dizendo "faz um sanduíche para mim" ou "volte para a cozinha". Elas observavam claramente a raiz do problema e, ao mesmo tempo, sentiam medo. "Sinto que o medo vem de observar a internet", explicou uma aluna do ensino médio, "e ver que a razão que leva os meninos a atacarem muito as meninas é porque eles querem culpar alguém pelos seus problemas". "Acho que a saúde mental dos homens é um problema, mas, com a internet, sinto que a principal solução para eles é simplesmente culpar uma mulher." Por isso, ao mesmo tempo em que se preocupam com seus colegas de classe que "reprimem as coisas", as meninas também sentem medo da forma com que alguns meninos e homens podem agir, imitando os comportamentos da machosfera. Para Yelin, "sua compreensão da misoginia e da cultura do estupro é muito sofisticada e devastadora, pois elas vivenciam isso todo o tempo, todos os dias". Um sindicato de professores alertou recentemente que vem 'crescendo uma crise de masculinidade' nas escolas britânicas PA Media As mesmas meninas declararam que desejam proteger aquelas mais jovens que publicam na internet que "querem uma relação tóxica com um menino", dizendo a elas "que vigiem seu comportamento ou mudem de atitude". Elas conseguiam observar como as meninas interpretam uma estranha espécie de papel feminino para agradar os meninos que, por sua vez, interpretam uma versão desvirtuada da masculinidade. A solução que elas encontraram foi se organizarem. Em uma escola que visitei em Rochdale, na Inglaterra, elas estavam criando um clube de meninas para discutir de tudo: da desigualdade de gênero, violência doméstica e vergonha do próprio corpo até a menstruação, sexualidade e os grupos de amizade. Mas os líderes da fundação responsável por uma escola com sede em Birmingham levantaram mais uma preocupação: as meninas da escola podem ficar inquietantemente caladas na classe — isso, quando chegam a ir à escola. O absenteísmo crônico (faltar a 50% das aulas ou mais) é um fenômeno crescente. Em 2017/18, apenas 6% das meninas atingidas pelo absenteísmo ficavam gravemente ausentes. E, em 2024/25, o percentual mais que dobrou, atingindo 13%. Os índices de ausência são mais altos para grupos específicos de alunos, como os que têm direito à merenda escolar gratuita. Problemas de saúde mental, como ansiedade, foram a preocupação mais comum apresentada pelos pais de meninas para uma linha telefônica de apoio gerenciada pela organização beneficente Young Minds. E existem também as responsabilidades de cuidados. Soube de meninas muito jovens, do sexto ano, que precisam cuidar de irmãos menores. E, por isso, elas faltam às aulas. Em uma cidade, conversei com uma adolescente que havia passado um ano fora da escola, "ajudando a mamãe" com o bebê menor. Tom Campbell dirige o ACT Academy Trust, que administra 38 escolas na Inglaterra e no País de Gales. Ele conta que "a queda [para as meninas] é real. E os dados claramente são alarmantes". Além disso, o nível de aprovações nas provas de inglês e matemática caiu em 7%. Vídeos em alta no g1 Progresso 'interrompido' Mas todas as meninas que conheci tinham sonhos para o futuro, desde ser microbióloga até seguir carreira de atriz ou jogar pela seleção feminina de futebol da Inglaterra. Fiquei muito impressionada com a consciência de todas elas sobre suas opções e como elas se comparam com as possibilidades disponíveis para as gerações anteriores. "Sou muito agradecida pelas oportunidades que nós, meninas, temos hoje em dia!", disse uma alegre adolescente de 15 anos. De fato, em quase todos os lugares que visitei, as meninas que conheci falaram (sem que eu perguntasse) sobre o seu lugar na história: como as mulheres conseguiram tão recentemente o direito de votar, de trabalhar e de serem independentes. Elas também descreveram seu entendimento sobre os desafios enfrentados pelas suas mães, irmãs, tias, madrinhas e avós e como elas ainda encontram algumas dessas dificuldades. Afinal, mesmo quando as leis mudam, os comportamentos não se alinham necessariamente com elas. As meninas descreveram por que elas acreditam que o progresso das mulheres, "que chegou até certo ponto", está sendo "freado" ou revertido, em alguns aspectos, pelas redes sociais e pelas opiniões impulsionadas por elas. Elas mencionaram a reversão do caso Roe vs. Wade em meio às discussões sobre o aborto nos Estados Unidos, o movimento de ideias antiwoke, a divulgação de conteúdo sobre a "esposa tradicional" na internet e a postura de Elon Musk, a favor do aumento da natalidade. Algumas meninas falaram sobre a postura de Elon Musk, promovendo o aumento da natalidade Getty Images Por outro lado, elas disseram terem observado "homens mais velhos, de mais de 20 anos", compartilhando livremente na internet suas opiniões sobre "como deveriam ser as mulheres". Fiquei impressionada com a consciência delas sobre o conteúdo disponível na internet. As meninas observam claramente as formas pouco saudáveis em que são vendidos estilos de vida e padrões de beleza, mesmo sentindo que ainda precisam interpretar alguma versão daquele conteúdo. Sua frustração por estarem presas em meio a tudo aquilo, às vezes, era perceptível. Elas ficaram indignadas, por exemplo, porque suas "primas de oito anos receberam produtos de tratamento da pele no Natal", enquanto elas próprias tinham o rosto totalmente maquiado aos 12 anos. Elas sabem que alguém está vendendo produtos para elas. Mas, ao mesmo tempo, os vídeos são de entretenimento e, muitas vezes, servem de base para suas conversas com as amigas. Espaços para substituir as redes sociais Por fim, suas amizades se desenvolvem, em grande parte, pelas redes sociais. As meninas disseram recear que ficar de fora das rápidas conversas na internet possa significar sua exclusão social na escola. Elas falaram das dificuldades para gerenciar essas amizades híbridas "todos os dias, todo o tempo" e de lidar com incidentes de assédio na internet por parte de colegas, além dos comportamentos mais graves dos desconhecidos. Uma menina disse acreditar que, à medida que crianças cada vez mais jovens passam a usar as redes sociais, a sua geração será a última a ter uma infância de verdade. Segundo as meninas, seus pais dizem que elas estão "crescendo com o dobro da velocidade", mas comentaram que as mais jovens estão crescendo "três vezes mais rápido", "agindo como se estivessem no ensino médio, tendo apenas 10 anos". Uma menina disse acreditar que sua geração será a última a ter uma infância real, devido à participação das crianças mais jovens nas redes sociais Getty Images Mas a ideia de poder agitar uma varinha de condão e fazer tudo desaparecer gerou reações contraditórias. As adolescentes mais velhas estão cansadas de "romance via Snapchat" e abaladas pelas imagens de genitais não solicitadas e interações sexuais "pornificadas". Elas expressaram uma espécie de falsa nostalgia, um anseio por um encontro romântico sem celulares, no estilo dos anos 1990. Mas elas também reconhecem como suas realidades na internet e fora da rede, agora, estão intimamente relacionadas. Meninas de todas as idades rapidamente destacaram os benefícios de encontrar pessoas afins que talvez vivam longe e o consolo que isso pode oferecer. Mas algumas se aventuraram a dizer que, se as redes sociais desaparecessem em um passe de mágica (para todos), elas seriam mais felizes. Depois de tantas horas de entrevistas, fico pensando nos clubes de jovens que visitei. Seu número diminuiu consideravelmente nos anos anteriores à pandemia. O clube de netball (um jogo similar ao basquete) e a companhia de dança ficaram particularmente gravados na minha memória. Eles são "terceiros espaços", com comunidade na vida real e muita atividade. Nestes clubes, as meninas com quem conversei tinham algo mais, que diferenciava suas entrevistas. Eram lugares onde elas podiam ser barulhentas e naturais, sem medo de fazer ruído, de ocupar o espaço ou de ser objeto de julgamento dos meninos ou de críticos na internet. Um relatório publicado em 2025 pela organização beneficente britânica para jovens OnSide concluiu que 76% dos jovens passam a maior parte do seu tempo livre em frente às telas e quase a metade (48%), dentro dos seus quartos. Então, me pergunto: de tanto falarmos em tentar retirar nossos adolescentes das telas, proibindo as redes sociais (onde, agora, eles sentem que se encontram e "comungam" entre si), será que deixamos de examinar com cuidado quais lugares seriam melhores para substituir a internet na vida real das meninas adolescentes? LEIA TAMBÉM: Não escrever mais à mão gerará crise de inteligência no ser humano, diz especialista 'Legalmente Loira' da Nasa é brasileira, pós-doutoranda em astrofísica e pesquisadora de exoplanetas

FONTE: https://g1.globo.com/educacao/noticia/2026/05/05/o-que-aprendi-sobre-adolescentes-apos-conversar-com-150-meninas-de-13-a-17-anos.ghtml


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