Indígena Huni Kuĩ de 24 anos é aprovado em concurso para professor no Ifac: 'Fiquei sem acreditar'

  • 19/04/2026
(Foto: Reprodução)
Jovem indígena Huni Kuĩ é aprovado como professor no Ifac O indígena Clécio Ferreira Nunes Huni Kuĩ, de 24 anos, ou Muru Inu Bake, na língua Hãtxa Kuĩ, foi aprovado como professor efetivo de inglês no Instituto Federal do Acre (Ifac) após uma trajetória marcada por dificuldades financeiras, longas rotinas de estudo e um processo de construção da própria identidade. Nascido e criado em Rio Branco, Clécio cresceu no bairro Montanhês, na parte alta da capital acreana, onde teve toda a trajetória no ensino básico em escolas públicas. Após terminar o ensino médio, cursou Letras Inglês na Universidade Federal do Acre (Ufac) e, atualmente, também faz mestrado, além de graduação em Jornalismo. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Neste domingo (19), data em que se celebra o Dia dos Povos Indígenas, o g1 conta a história por trás da aprovação do indígena para a área de docência do Ifac em Cruzeiro do Sul, interior do estado, que começou a ganhar fôlego em 2023 e teve um desfecho 'inesquecível' para ele em fevereiro deste ano, com a tão sonhada nomeação no Diário Oficial da União (DOU). “Quando eu nome na lista de classificados fiquei sem acreditar. Queria gritar, mas não podia porque era de madrugada”, relatou. O jovem decidiu se inscrever no concurso do Ifac no mesmo período em que concluía a graduação e se preparava para entrar no mestrado, em 2023. A escolha veio após ver o edital circulando nas redes sociais e perceber que havia mais oportunidades na área dele. “Eu vi que tinha quatro vagas para Letras/Inglês. Aí pensei que quatro vagas era muita coisa e eu precisava só de uma. Foi isso que me motivou a tentar”, relembrou. Apesar do bom desempenho nas primeiras etapas, a demora no andamento do concurso chegou a desanimar o candidato. O processo ficou suspenso por vários meses após questionamentos judiciais, o que gerou incerteza entre os participantes. Clécio contou que, nesse período, já não queria fazer a prova didática e cogitou desistir da seleção. Porém, a motivação voltou ao perceber que concorrentes de outros estados estavam se deslocando até o Acre para disputar a vaga, enfrentando custos e longas viagens. “Eu vi gente vindo do Maranhão, pedindo indicação de hotel. Foi aí que a chave virou, eu já estava aqui, não ia gastar com passagem e hospedagem. Isso me deu um ânimo”, complementou. Clécio Ferreira Nunes, de 24 anos, indígena do povo Huni Kuĩ, foi aprovado como professor de inglês no Ifac Arquivo pessoal LEIA MAIS: Indígena do AC que tirou 920 pontos na redação sonha em fazer medicina: 'Quero ajudar as crianças' Pela 1ª vez após 23 anos, dois indígenas são aprovados em curso de medicina da Ufac: 'Grande honra' Acre tem o menor percentual de indígenas no ensino superior do país, diz levantamento Inicialmente, Clécio não ficou entre as vagas imediatas. Ele foi classificado em quinto lugar na ampla concorrência, mas, com a aplicação das cotas previstas no edital, passou a ocupar a sexta colocação geral. Segundo ele, as chamadas foram sendo feitas ao longo de 2025, geralmente uma pessoa por vez. A expectativa aumentou quando surgiu a possibilidade de abertura de novas vagas, inclusive em Feijó. Contudo, a convocação veio apenas no dia 27 de fevereiro deste ano, de madrugada, quando o instituto chamou três candidatos da área de Letras Inglês de uma só vez, incluindo Clécio. “Quando vi meu nome na lista, fiquei tão feliz, nunca vou esquecer. Era 2h da manhã e eu pulava de alegria. A primeira pessoa para quem contei foi a minha mãe [...] eu acompanhava tudo. Sabia que uma hora podia chegar a minha vez. Não desisti apesar de saber que tinha pessoas mais experientes”, relatou. Vivências Apesar de ser indígena, Clécio não teve vivência em aldeia durante a infância. Contudo, o contato com a cultura Huni Kuĩ acontecia dentro de casa, com a presença de parentes que visitavam a família, usavam pinturas e adereços, além de falarem na língua. A primeira vez dele em uma terra indígena só aconteceu já na juventude, por volta dos 20 anos, quando visitou a aldeia da família paterna, em Feijó, no interior do Acre. Já na escola, ele lembrou de uma infância marcada pela timidez e por situações de estranhamento. “Eu era muito introvertido, não me entrosava. E tinha essa curiosidade das outras crianças por eu ter o olho puxado. Muitas vezes me associavam a asiáticos, como se eu fosse chinês ou japonês”, disse. Contato com línguas estrangeiras Clécio contou ainda que sempre teve facilidade para aprender, principalmente idiomas. A primeira língua estrangeira foi o espanhol, ainda na adolescência. Depois, decidiu estudar inglês em um curso em Rio Branco, mesmo enfrentando dificuldades de deslocamento. Sem condições de pagar cursinho, Clécio se preparou para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) com o apoio da escola pública e aulas gratuitas, em meio a uma rotina cansativa. Quando passou para Letras Inglês na Ufac, a situação ficou ainda mais intensa. Embora tenha passado a receber bolsas acadêmicas que ajudaram também na renda familiar, ele precisava pegar ônibus por volta das 10h para conseguir chegar na universidade às 13h e, por diversas vezes, voltava apenas à noite. De acordo com ele, a forma como os professores ensinavam, com participação e fala, e não somente gramática, influenciou diretamente na escolha da profissão. “Eu queria ensinar para que outras pessoas também tivessem essa oportunidade. Era ruim falar inglês sozinho, sem ter com quem conversar”, disse. Clécio Ferreira Nunes, de 24 anos, indígena do povo Huni Kuĩ, foi aprovado como professor de inglês no Ifac Arquivo pessoal Representatividade e objetivos Clécio destacou ainda que nunca teve um professor indígena durante toda a vida escolar e acadêmica, da creche ao mestrado. Para ele, ocupar esse espaço tem um significado coletivo. “Eu nunca tive essa referência. Hoje, ao conseguir essa vaga, eu espero ser isso para alguém. Se não tem ninguém lá, não quer dizer que não é para você. Vai lá e seja essa pessoa. Não desista'', encorajou. Além da docência, ele pretende seguir na carreira acadêmica, com planos de fazer doutorado e ampliar pesquisas sobre literatura indígena. Clécio também quer desenvolver projetos de ensino de inglês voltados às comunidades indígenas, inclusive pensando em turismo nas aldeias. Além disso, o jovem reforçou a importância de outros indígenas ocuparem os espaços acadêmicos. “Sonhe em estar lá e nunca esqueça de onde veio. Tudo o que você aprender na jornada acadêmica precisa voltar para o seu povo”, concluiu. Clécio Ferreira Nunes, de 24 anos, indígena do povo Huni Kuĩ, foi aprovado como professor de inglês no Ifac Arquivo pessoal

FONTE: https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2026/04/19/indigena-huni-kui-de-24-anos-e-aprovado-em-concurso-para-professor-no-ifac-fiquei-sem-acreditar.ghtml


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