Grupo do Senado que investiga caso Master mira atuação da Comissão de Valores Mobiliários
10/02/2026
(Foto: Reprodução) Caso Master: Senado cria grupo de trabalho para acompanhar investigação
O grupo de trabalho da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado criado para acompanhar as investigações do caso Master já tem um foco inicial dos trabalhos: a atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda.
Segundo o presidente da CAE, senador Renan Calheiros (MDB-AL), o grupo deve deliberar nesta terça-feira (10) requerimentos para audiências iniciais com representantes da CVM.
A justificativa para a decisão é que "cabia ao órgão fiscalizar os fundos", segundo o alagoano.
A CVM é responsável por regular fundos de investimentos, que, segundo a Polícia Federal, podem ter sido usados em esquemas de fraude envolvendo o banco Master e outras instituições, como a Reag Investimentos.
🔎A autarquia atua com autonomia administrativa e financeira, sem subordinação hierárquica direta, visando a eficiência do mercado financeiro. Ela não fiscaliza bancos (função do Banco Central), mas sim as empresas que negociam ações, debêntures e fundos.
Fachada do Banco Master no Itaim Bibi, na Zona Sul de São Paulo, no dia 19 de novembro de 2025
Rovena Rosa/Agência Brasil
A possível audiência com representantes da CVM ocorre no momento em que a CAE ainda precisa aprovar duas indicações ao órgão feitas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Uma delas é a do presidente interino da instituição, Otto Lobo.
A escolha de Lobo para permanecer na presidência da CVM gerou forte reação do mercado financeiro por ser apontada como uma decisão política, com forte influência do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).
Alcolumbre, no entanto, rechaça a tese e, reservadamente, alega não ser “pai” da indicação.
Em paralelo, requerimentos que poderiam ser analisados pelo GT para pedir acesso a informações sigilosas das investigações em andamento devem ficar para depois.
Renan quer, primeiro, apresentar os pedidos diretamente às autoridades competentes para manter a boa relação.
Atuação do Grupo de Trabalho (GT)
Nesta quarta-feira, uma comitiva do GT terá reuniões com o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e com o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF). O intuito é pedir acesso, inclusive, a dados de operações anteriores ao inquérito do banco Master, como é o caso da Carbono Oculto.
Na última semana, o grupo da CAE já teve encontros presenciais com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), Vital do Rêgo.
Nas duas ocasiões, Renan diz ter recebido sinais positivos sobre o acesso ao material. Na avaliação de auxiliares de Renan, os dados do BC e do TCU já poderiam ser suficientes.
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Por se tratar de um GT e não de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), o acesso a dados sigilosos é visto como mais complexo.
Ainda assim, Renan e aliados alegam ter como base a lei 105 de 2021, que diz que as comissões parlamentares de inquérito "obterão as informações e documentos sigilosos de que necessitarem, diretamente das instituições financeiras, ou por intermédio do Banco Central do Brasil ou da Comissão de Valores Mobiliários".
O texto diz ainda que “o Banco Central do Brasil e a Comissão de Valores Mobiliários, nas áreas de suas atribuições, e as instituições financeiras fornecerão ao Poder Legislativo Federal as informações e os documentos sigilosos que, fundamentadamente, se fizerem necessários ao exercício de suas respectivas competências constitucionais e legais”.
No caso de o requerimento envolver uma nova quebra de sigilo, a legislação determina que a questão teria que passar pelo plenário, algo que Renan quer evitar.
“As solicitações de que trata este artigo deverão ser previamente aprovadas pelo Plenário da Câmara dos Deputados, do Senado Federal, ou do plenário de suas respectivas comissões parlamentares de inquérito.”
A avaliação de senadores é que há resistência da cúpula do Congresso para a criação de uma CPI do Master neste momento.
Por isso, a ideia é buscar outras alternativas, inclusive através do GT. Se houver negativa no acesso aos dados, pessoas próximas a Renan não descartam aproveitar a CPI do Crime Organizado, já instalada, para propor requerimentos.
CVM também se movimenta
Enquanto o Senado concentra esforços para cobrar explicações sobre a atuação da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) no caso Master, o órgão regulador também passou a organizar internamente suas frentes de apuração.
Nesta semana, a CVM instalou um grupo de trabalho e determinou o levantamento das áreas envolvidas e das análises já realizadas sobre o banco.
Na primeira reunião do grupo de trabalho interno da CVM, criado para analisar as ações do Banco Master, foi determinada a identificação das áreas internas do órgão que atuam em temas relacionados ao conglomerado comandado por Daniel Vorcaro.
Segundo fontes ligadas ao GT, nesta segunda-feira (9) foi “formalmente disparado o comando” para que as diferentes superintendências da CVM indiquem quais subáreas e servidores trabalham com temas e modalidades em que o Banco Master e a gestora Reag atuam.
A orientação inclui, ainda, o envio de um detalhamento das medidas e análises realizadas até agora nesses casos.
A CVM é estruturada em superintendências, cada uma responsável por um conjunto específico de atribuições.
A decisão tomada na reunião desta segunda prevê o mapeamento das unidades que tratam de temas relacionados à atuação do Banco Master, com o objetivo de informar ao GT as providências já adotadas e os processos em andamento.
Nova investigação
A Comissão de Valores Mobiliários iniciou nesta segunda uma nova investigação sobre as ações do Banco Master, da gestora de fundos Reag e de outras entidades conexas — ou seja, outras empresas ligadas ao caso ou aos fatos sob análise.
A apuração interna deve durar cerca de três semanas. Apesar disso, o colegiado da CVM ainda não tem reunião formal marcada antes da próxima semana para avaliar os dados que serão levantados a partir das determinações feitas nesta segunda-feira.
Uma fonte próxima ao Grupo de Trabalho afirmou, no entanto, que a expectativa é que as informações sejam analisadas à medida que forem recebidas.
De acordo com a CVM, o objetivo do GT é consolidar e sistematizar fatos, processos e informações para aprimorar o diagnóstico institucional, fortalecer o acompanhamento integrado das ações em curso e garantir maior prestação de contas à sociedade.