Governo do RJ devolve à PM ex-segurança de Castro que foi promovido por bravura em ação sem presos ou armas apreendidas

  • 23/05/2026
(Foto: Reprodução)
O tenente Cláudio Barbosa da Silva na época que atuava como segurança do então vice-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL). Reprodução TV Globo O tenente da Polícia Militar Cláudio Barbosa da Silva, ex-segurança e ajudante de ordens do ex-governador Cláudio Castro (PL), deixou oficialmente a estrutura da Subsecretaria Militar do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) do Governo do Estado e foi devolvido à PM do Rio. A movimentação que tirou do Palácio Guanabara mais um aliado de Castro foi publicada no Boletim da Polícia Militar do último dia 8 de maio. A saída de Cláudio Barbosa acontece em meio à ampla reformulação promovida pelo governador em exercício do Rio, desembargador Ricardo Couto, que já resultou em mais de 2,5 mil exonerações de pessoas ligadas à gestão anterior. O atual governo afirma que realiza uma auditoria administrativa nas estruturas estaduais após a renúncia de Cláudio Castro, ocorrida em março deste ano. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça No boletim interno da PM, Cláudio Barbosa aparece como “desadido”, deixando de servir à disposição da Subsecretaria Militar do GSI. Após deixar o Palácio Guanabara, o oficial foi designado ao Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), unidade voltada à formação e atividades administrativas da corporação. Quem é Cláudio Barbosa Vídeo gravado no dia 9 de junho mostra ação criminosa na Zona Norte do Rio Cláudio Barbosa ganhou notoriedade dentro da Polícia Militar após ser promovido ao oficialato por ato de bravura em uma ocorrência registrada em 2023. Segundo a versão oficial da PM, o policial interveio em um arrastão em um bairro da Zona Norte do Rio. Na ação, não houve criminosos presos nem armas apreendidas. A promoção foi concedida pela Comissão Especial de Investigação Sumária Bravura/Coragem e Destemor da Polícia Militar, durante o mandato do ex-governador Cláudio Castro. O órgão é o mesmo que negou pedidos de promoção de policiais que enfrentaram 30 traficantes armados com fuzis e apreenderam sete armas de guerra em uma operação no Complexo da Pedreira e Chapadão, entre outras negativas (veja mais exemplos abaixo na reportagem). A ocorrência A ocorrência que resultou na promoção de Cláudio Barbosa aconteceu no dia 9 de junho de 2023 e foi citada no boletim interno nº 196, publicado pela PM em outubro daquele ano. Segundo o registro, o então subtenente estava em casa, por volta das 17h, quando ouviu pedidos de socorro e viu quatro criminosos realizando um arrastão na rua onde mora. Ainda de acordo com o relato da corporação, um dos criminosos estava armado com um fuzil. Cláudio Barbosa teria então usado sua arma, saído do prédio e se abrigado para observar a ação. Em seguida, dois bandidos teriam ido em sua direção. O policial afirmou que foi alvo de disparos e revidou com dois tiros. Os criminosos fugiram logo depois, diz o relato. Uma motocicleta roubada foi abandonada. O suposto arrastão ocorreu em uma rua da Zona Norte do Rio. Reprodução Google Maps O g1 entrou em contato com a assessoria de Cláudio Castro em abril de 2024, quando ele ainda era governador – a renúncia foi em março de 2026. Na época, o governo confirmou a dinâmica da ação e informou que Cláudio Barbosa cumpriu os requisitos para o pedido de promoção por ato de bravura, visto que ele estava em inferioridade bélica e numérica, em relação aos criminosos, além de ter conseguido interromper uma atividade ilegal e ter conseguido recuperar um bem roubado. Por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI), o g1 pediu a íntegra do documento que relata a ação que originou o pedido de promoção por bravura para o policial. A Polícia Militar, porém, respondeu que "as informações nele contidas encontram-se protegidas pelo grau mínimo de sigilo, qual seja, o de reservado, respeitado o princípio menos restritivo, em função do risco à sociedade". Vídeo mostra assalto na mesma rua O g1 teve acesso a um vídeo (veja acima) gravado no mesmo dia 9 de junho, na rua onde mora Cláudio Barbosa. As imagens feitas por um vizinho dele mostram um assalto em andamento. Na gravação, não é possível ver a presença de criminosos de fuzil ou troca de tiros. Vídeo gravado no mesmo dia 9 de julho mostra carro roubado deixando a rua e moto abandonada. Imagens não mostram arrastão ou ato de bravura do policial. Reprodução redes sociais O homem que faz a gravação da janela de sua casa diz que a ação criminosa se trata de um assalto. Ele filma o possível carro roubado seguindo pela rua e uma moto abandonada na via. Na gravação, ele narra: "Assalto em andamento agora. Assalto em andamento". No final do vídeo, é possível ouvir um disparo de arma de fogo, mas a gravação não mostra de onde partiu o tiro e não mostra nenhuma movimentação de criminosos pela rua. As imagens também não capturam a presença do policial ou qualquer ação heroica no local. A gravação foi feita no final da tarde daquele dia, do prédio vizinho de onde mora o policial. O que diz a lei A legislação estadual define a promoção por ato de bravura para policiais como um reconhecimento para “atos não comuns de coragem e audácia, que, ultrapassando os limites normais do cumprimento do dever, representem feitos indispensáveis ou úteis às operações policiais militares”. Entre os critérios previstos estão: desvantagem numérica e tática; exposição efetiva ao risco; participação direta na ação; e prática de ato além do cumprimento normal do dever funcional. Ato de bravura controverso Coronel da reserva da PM, antropólogo e pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, Robson Rodrigues afirmou que a legislação sobre promoção por bravura abre margem para decisões subjetivas dentro da corporação. “A questão da promoção na polícia é nefrálgica. Não há critérios. Nosso regulamento promove muitas injustiças”, afirmou Rodrigues. Sobre o caso envolvendo o então ajudante de ordens de Cláudio Castro, o coronel disse que não vê elementos suficientes para caracterizar bravura. “Beneficiado por ser policial militar, ele não agiu assim com todo esse altruísmo que a gente poderia avaliar em uma legislação específica e objetiva para poder definir casos de bravura. Essa é uma falha na nossa legislação”, afirmou. Cláudio Barbosa da Silva (a esquerda), atuava como ajudante de ordem do ex-governador Cláudio Castro quando foi promovido por suposto ato de bravura Divulgação Casa Militar Na avaliação do especialista, promoções desse tipo acabam sendo influenciadas por relações políticas dentro da corporação. “Isso já acontece faz tempo e é uma válvula de escape para que se faça política e politicagem dentro das corporações. (...) Todas as regras de promoção por bravura deveriam diminuir essa lacuna de subjetividades”, disse Rodrigues. Atalho para ser oficial A promoção por bravura permitiu que Cláudio Barbosa desse um salto na carreira militar. Antes da promoção, ele integrava a categoria de praças da PM. Com o reconhecimento, passou diretamente ao oficialato, assumindo o posto de tenente sem necessidade de aprovação no concurso interno tradicional do Quadro de Oficiais Auxiliares (QOA). A promoção também tem impacto direto no salário do policial, garantindo um aumento automático por conta do novo posto de tenente, além do bônus que ele passou a ter direito por ser oficial no cargo de ajudante de ordens do governador. Cláudio Barbosa (a direita) concluiu o curso de formação pra oficial da PM na Academia de Polícia Militar Senador Arnon de Mello, em Maceió, na capital do Alagoas. Maj Dos Anjos / reprodução Casa Militar Ao longo da carreira, Cláudio Barbosa tentou aprovação no processo seletivo interno da corporação, mas não obteve êxito. Em 2023, por exemplo, ele foi reprovado no concurso interno para oficial, conforme publicação da própria PM. A promoção por bravura também acelerou sua formação na academia de oficiais. Diferente da maioria dos aspirantes à oficial da PM do Rio de Janeiro, o ex-ajudante de ordens de Castro concluiu seu curso em outro estado, sem precisar esperar pela abertura de um curso no RJ. Em dezembro de 2025, a Casa Militar do Governo do Estado divulgou oficialmente a conclusão do Curso de Habilitação de Oficiais (CHO) por Cláudio na Polícia Militar de Alagoas. Segundo a publicação institucional, Cláudio Barbosa concluiu o curso realizado na Academia de Polícia Militar Senador Arnon de Mello, em Maceió. Na nota, a Casa Militar afirmou que o oficial “destacou-se ao longo de toda a formação” e o classificou como “exemplo para seus superiores, pares e subordinados”. Braço direito do governador A relação entre Cláudio Barbosa e Cláudio Castro é antiga. Antes de atuar como ajudante de ordens, o policial já integrava a equipe de segurança de Castro quando ele ainda era vice-governador do Rio. Delator diz que Cláudio Castro recebeu mais de 100 mil de propina Os dois aparecem juntos, inclusive, em imagens reveladas pela GloboNews em 2021, relacionadas à investigação sobre suposto pagamento de propina ao então vice-governador. Na ocasião, Castro foi filmado entrando em um prédio comercial na Barra da Tijuca para se encontrar com o empresário Flavio Chadud, investigado por corrupção. As imagens mostram Cláudio Barbosa acompanhando o então vice-governador durante toda a movimentação. Segundo delação investigada pela Justiça, Castro teria recebido R$ 100 mil em propina em uma mochila após o encontro. O ex-governador nega irregularidades. O então vice-governador do RJ era acompanhado de perto por Cláudio Barbosa, que na época atuava na segurança de Castro Reprodução Globo News O processo que investiga o possível ato de corrupção de Cláudio Castro segue em tramitação na Justiça. Em agosto de 2023, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou dois pedidos do governador do Rio para anular duas delações em que ele é acusado de ter recebido propina na época em que era vice-governador e vereador do Rio. Castro negou as acusações. Promoções por bravura negadas O mesmo boletim da PM que aprovou a promoção de Cláudio Barbosa analisou outros oito pedidos de promoção por bravura. Todos os demais foram rejeitados sob justificativa de que as ações praticadas seriam “inerentes à atividade policial militar”. Dos 9 pedidos de promoção analisados, apenas a ocorrência envolvendo o ajudante de ordens do então governador foi classificada como "ato de bravura". Entre os casos negados estavam operações de confronto armado em áreas dominadas pelo tráfico e ações de salvamento com risco de morte. Uma das promoções negadas envolveu quatro policiais do 41º BPM, em Irajá. Segundo documentos internos da corporação, os agentes participaram de um intenso confronto com cerca de 30 traficantes armados no Complexo da Pedreira e Chapadão, na Zona Norte do Rio. Ao fim da operação, a equipe apreendeu sete fuzis — incluindo uma arma calibre .50 —, além de prender um criminoso e balear integrantes do Comando Vermelho apontados como lideranças da região. A operação foi considerada uma das maiores apreensões de armas da unidade. Vida salva Outro pedido rejeitado envolveu uma policial militar que se lançou no Rio Preto, em Rio das Flores, município da Região Sul Fluminense, para salvar uma mulher que havia sido arrastada pela correnteza. Segundo o comandante responsável pelo pedido, a policial colocou a própria vida em risco em uma função que normalmente caberia ao Corpo de Bombeiros. Rio Preto em Rio das Flores preocupa Defesa Civil Prefeitura e Rio das Flores "Bravura pra mim é o cara tomar uma decisão que nenhuma outra pessoa tomaria para salvar vidas. Pra mim isso é bravura. O problema é que isso é instrumentalizado para beneficiar alguns e outros, não", analisou o especialista em segurança pública e coronel da reserva da PM Robson Rodrigues. "Então, os amigos do rei vão primeiro porque o rei estabelece o que é merecer ou não essa promoção", comentou o especialista. Os policiais envolvidos nas ocorrências do 41º BPM e no salvamento em Rio das Flores receberam a Medalha de Coragem e Destemor da corporação. É prática comum na Polícia Militar conceder a medalha aos policiais que participam de ações extraordinárias e que representam perigo. Em relação aos pedidos de promoção por ato de bravura, existem três possibilidades. A primeira e mais comum é quando o policial é promovido por bravura e recebe a Medalha de Coragem e Destemor. Segundo fontes da Polícia Militar, quando o ato de bravura é aprovado, a medalha acaba também fazendo parte do pedido e é aprovada naturalmente; A segunda possibilidade, também bastante comum, é quando o policial não é promovido por bravura, mas os coronéis avaliam que ele merece receber a medalha. "Nesses casos, às vezes, a promoção vai fazer o policial dar um salto na carreira e, para evitar essa oneração no orçamento, o comando nega a promoção, mas oferece a medalha", comentou um policial de alta patente que não quis se identificar; Na prática menos comum, considerada como "muito improvável" por especialistas, o policial tem a promoção por bravura aprovada, mas não recebe a medalha. "Essa é a mais incoerente, visto que o policial foi considerado um herói e vai ter a promoção de cargo, mas não vai receber a honraria", disse um policial. A situação mais incomum foi justamente a que ocorreu com Cláudio Barbosa. Ele ganhou a promoção por bravura, mas não recebeu a medalha. Sigilo Tanto o processo que avaliou o pedido de promoção por ato de bravura do ex-ajudante de ordens de Cláudio Castro, como a ocorrência registrada na Polícia Civil sobre o caso foram colocadas em sigilo pelo Governo do RJ à época. De acordo com especialistas da área de segurança, a prática não é comum. Um dos policiais ouvidos pela reportagem afirmou que um ato de bravura é o maior reconhecimento que um policial pode ter e, para ele, não faz sentido não dar publicidade para ações positivas de seus agentes. Como comparação, os pedidos de promoção dos policiais do 41º BPM e do caso de Rio das Flores não estavam em sigilo. Ao g1, o Governo do Rio de Janeiro informou, na época, que o motivo para o sigilo do processo que resultou na promoção de Cláudio Barbosa era uma questão de segurança, visto que o documento identifica o endereço do policial. Contudo, em casos semelhantes, o Poder Executivo do Estado tem a costume de divulgar o processo, mas com tarjas pretas escondendo as informações que ele julga sensíveis à segurança do militar, o que não ocorreu dessa vez. A equipe do g1 tentou contato com o policial Cláudio Barbosa, mas até a última atualização desta reportagem não teve retorno.

FONTE: https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2026/05/23/governo-do-rj-devolve-a-pm-ex-seguranca-de-castro-promovido-por-bravura-em-acao-sem-presos-ou-armas-apreendidas-entenda.ghtml


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