'Eu já tinha aceitado que não ia sair dali viva', diz empregada grávida torturada após acusação de furto de anel
10/05/2026
(Foto: Reprodução) 'Eu já tinha aceitado que não ia sair dali viva', diz empregada grávida torturada após acusação de furto de anel
Reprodução
Uma empregada doméstica, de 19 anos e grávida de cinco meses, revelou que foi torturada pela patroa e por um homem, depois identificado como um policial militar. A jovem tinha sido acusada de furtar um anel.
Samara Regina Dutra falou ao Fantástico sobre as marcas dessa violência física e psicológica.
Foi um dia traumático na vida de Samara, empregada doméstica que trabalhava em uma das casas de um condomínio na cidade de Paço do Lumiar, no Maranhão. Ela tem 19 anos, está grávida de cinco meses e foi torturada pela patroa e por outro homem, um policial.
A patroa é a empresária Carolina Sthela Ferreira dos Anjos. Ela mesma contou, em áudios, como machucou e aterrorizou Samara.
Carolina achava que Samara tinha furtado um anel.
Um dia antes, Carolina avisou à empregada sobre o sumiço do anel e pediu que ela tentasse encontrá-lo. Em depoimento à polícia, Samara disse que procurou das quatro da tarde às nove da noite, mas não achou nada. A patroa, então, decidiu chamar um amigo para pressionar a funcionária.
Carolina contou: “Ele disse: ‘Carol, eu não posso ir agora porque eu tô bebendo. E eu já sou doido, se eu for agora é pior. Mas amanhã de manhã, o meu café é aí contigo’.”
O amigo de Carolina chegou à casa dela pouco depois das sete da manhã.
Carolina relatou: “Ele já veio com uma jumenta de uma arma, chega a brilhar. ‘Samara, faz favor, vem cá! Ontem sumiu meu anel, você sabe que aqui não entrou ninguém de fora, só a gente. A única pessoa estranha é você e meu anel não tem perna e nem asa pra andar voando, então eu quero que você vá pegar meu anel de onde você botou’.”
Samara conta que o homem a ameaçou com a arma para obrigá-la a confessar o suposto furto.
“Falava que, se o anel não aparecesse, eu ia levar um tiro”, disse Samara.
Carolina também afirmou: “Ele puxou a bicha (arma), tirou a touca da cabeça dela, pegou no cabelo, botou ela de joelho, puxou a bicha (arma) e botou na boca dela. ‘Eu acho bom você entregar logo esse anel!’ E ela de joelho, bora!”
Carolina e o homem que estava com ela ficaram ainda mais violentos.
Carolina descreveu: “Aí nada, nada, isso quase uma hora essa menina no massacre. E tapa e murro e pisava nos dedos e tudo que vocês imaginaram de doidice. Era eu e ele fazendo.”
Samara contou: “Ele pegou no meu cabelo e me derrubou no chão.”
Também afirmou: “Me dava socos na região do pescoço e costas.”
Ela disse ainda: “Ele me arrastou.”
Questionada sobre como isso aconteceu, respondeu: “Pelo cabelo.”
Samara afirmou: “Antes de encontrar o anel, eu já tinha aceitado que eu não ia sair dali viva.”
Depois de procurar em vários cômodos, Samara encontrou o anel em um cesto de roupas sujas.
Ela relatou: “Ela pegou, colocou no dedo e, depois disso, ela me bateu.”
Carolina também contou em áudio: “Ontem (...) eu fui no cesto de roupa suja, eu tirei tudo e nada. Aí na hora que ela abre o cesto de roupa suja, que ela puxa, o anel cai. Ai, gente! Nessa hora... dei tanto nessa mulher! ‘Pensando que é o quê, rapaz? Trabalho minha vida todinha pra conquistar minhas coisas, pra tu vir me roubar?’ Gente, eu dei tanto que minha mão tá inchada. Até hoje o meu dedo já tá roxo.”
Samara disse que tentava proteger a barriga.
“Abraçando. Porque, como eu estava no chão, eu tinha medo deles inventarem de me chutar.”
Perguntada se Carolina sabia da gravidez, respondeu: “Sabia. Desde o início.”
Segundo a polícia, depois de quase uma hora de tortura, Carolina expulsou Samara da casa.
A jovem pediu ajuda a uma amiga que mora no condomínio. Por motivo de segurança, essa amiga não quis se identificar.
A amiga contou: “Ela não conseguia falar, porque estava chorando bastante. A primeira frase que ela disse foi: ‘Me acusaram de roubo’.”
A amiga chamou a polícia.
Samara contou: “Só pediram o endereço e me levaram até lá, até a casa da Carolina. Eu fiquei dentro do carro enquanto eles iam falar com ela.”
Questionada se ouviu a conversa, respondeu: “Não... Mas durou cerca de três minutos, só.”
Perguntada se Carolina foi levada para a delegacia, respondeu: “Não.”
Em imagens cedidas pela Secretaria de Segurança Pública do Maranhão, é possível ver um dos quatro policiais que atenderam à ocorrência entrando na casa de Carolina.
Carolina afirmou em áudio: “Veio com um policial que me conhecia. Sorte minha, né? Aí ele disse: ‘Carol, se não fosse eu, tinha que te conduzir pra delegacia, porque ela tá cheia de hematoma’. Aí eu disse: ‘Era pra ter ficado, era mais, não era nem pra ter saído viva’. Aí ele se acabou de rir.”
O exame de lesão corporal confirmou que Samara sofreu agressões como socos e tapas no rosto, nas costas e no braço esquerdo. O laudo também apontou manchas pelo corpo e uma lesão provocada por ação de instrumento contundente.
O homem que, junto com Carolina, é acusado de torturar Samara é o policial militar Michael Bruno Lopes Santos.
Os dois foram presos esta semana.
Carolina estava no Piauí com o marido e o filho e tinha mudado a cor do cabelo.
Matheus Zanatta, superintendente de Operações Integradas da SSP do Piauí, afirmou: “Nós a encontramos em um posto, saindo de um abastecimento, e tudo indica que ela iria para o litoral piauiense e depois fretaria um voo não comercial para o estado do Amazonas.”
A polícia acredita que ela fugiria com a família para o Paraguai.
A advogada de Carolina, Nathaly Moraes, disse: “Ela afirma que enviou os áudios, mas que as circunstâncias dos áudios não foram exatamente como de fato aconteceu. Que ela acabou exagerando naquilo que ela falou nos áudios (...) Em nenhum momento ela nega a autoria.”
Questionada se Carolina agrediu Samara, respondeu: “A palavra ‘agressão’ a gente poderia utilizar.”
Carolina negou participação no espancamento e disse não ter visto se Michael estava armado.
O laudo pericial indicou que a voz das conversas no aplicativo de mensagens é dela.
Sobre os policiais que atenderam à ocorrência depois que Samara pediu socorro, Carolina disse não conhecer nenhum deles.
Michael confirmou que ele, Carolina e Samara procuraram pelo anel e que, depois que o encontraram, a patroa espancou a empregada.
Ele negou participação e disse que, por não concordar, saiu do local.
O delegado do caso afirmou: “Ora, ele é réu confesso, porque a tortura não só se pratica por ação, mas se pratica por omissão. Ele foi omisso. Como policial militar, ele foi omisso.”
Michael afirmou ainda que não estava armado e que não tem permissão para portar arma de fogo há dois anos, segundo a Secretaria de Segurança, por problemas psicológicos.
A secretária afirmou: “Olha, quando eles são afastados por qualquer problema de saúde psicológica, um dos itens é que ele não use arma.”
Questionada se ele poderia estar usando uma arma em qualquer situação, respondeu: “Não. Quando é afastado, a determinação aqui também retira a arma.”
O delegado disse que vai fazer uma investigação à parte para saber por que os policiais que foram à casa de Carolina não a levaram até a delegacia.
Ele afirmou: “Vou chamar todos eles que estavam lá, que foram até o local, e quero saber por que eles não conduziram a agressora.”
Questionado se os policiais já foram identificados, respondeu: “Dois, pelo menos, já estão identificados.”
A Secretaria de Segurança Pública do Maranhão afastou os PMs de suas funções.
A secretária declarou: “Sim, os quatro policiais já foram identificados e já foi aberto o procedimento administrativo contra eles.”
Questionada sobre o objetivo da investigação, respondeu: “A real participação deles e por que foram omissos no atendimento da ocorrência.”
A defesa de Michael disse, em nota, que ele nega ter cometido qualquer tipo de agressão e que vai se manifestar depois que os advogados tiverem acesso à investigação completa.
Carolina e Michael estão sendo investigados por seis crimes: tentativa de homicídio triplamente qualificado, tortura, cárcere privado, injúria, calúnia e difamação.
Carolina tem um histórico de problemas com a Justiça. Responde a processos por dívidas não pagas. Já foi condenada por calúnia, quando acusou injustamente uma ex-babá de ter roubado uma pulseira de ouro.
A ex-babá contou: “Falou que ela ia na delegacia, que ela ia falar que eu tinha roubado a pulseira do filho dela. Eu falei: ‘Eu não roubei a pulseira do seu filho, mas, se você quiser ir lá, você pode ir’. (...) E eu fui muito antes do que ela, né. Saí de lá, fui diretamente na delegacia e fiz o BO.”
Ela mesma, a patroa que suspeita de funcionárias, tem uma condenação por furto.
A defesa de Carolina não quis comentar esses casos e disse que só vai se pronunciar sobre a acusação de tortura depois da conclusão do inquérito.
Samara tenta lidar com os traumas.
“Ficou aquele medo”, disse.
Questionada se já tinha ouvido os áudios antes da repercussão, respondeu: “Não.”
Samara afirmou ainda: “Veio tudo à tona, sabe? Como um filme. Só que um filme bem doloroso.”
O delegado afirmou: “Não tem prova nenhuma que Samara cometeu isso.”
Manasses Marthan, advogado de Samara, declarou: “Nnós temos a consciência de quantas outras pessoas passam por isso em silêncio ou não são credibilizadas. Então, o que esperamos é justamente a justiça, a realização da justiça.”
Samara afirmou: “Eu espero justiça. Porque ninguém merece passar pelo que eu passei. E eu acho que, na cabeça deles, ia ficar por isso mesmo.”
Durante uma ultrassonografia para verificar se o bebê estava bem, Samara recebeu uma notícia positiva.
Questionada sobre o resultado do exame, respondeu: “Sim, estava tudo bem, graças a Deus. Deu aquela sensação de que vai ficar tudo bem mesmo!”
GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico
Ouça os podcasts do Fantástico
ISSO É FANTÁSTICO
O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.