Empresas suspeitas de ligação com o PCC operam todas as linhas de bairro de ônibus de SP e transportam 41% dos passageiros

  • 17/09/2026
(Foto: Reprodução)
O ex-vereador Milton Leite é um dos alvos da operação contra suposta ligação do PCC com empresas de ônibus da capital As 12 empresas de ônibus suspeitas de ligação com Primeiro Comando da Capital (PCC) citadas na investigação da Operação Vectura Corrupta operam todas as linhas de distribuição local da cidade de São Paulo, responsáveis pelos deslocamentos dentro dos bairros e entre regiões próximas. Juntas, elas concentram 510 linhas municipais, o equivalente a 38% de toda a rede da capital. 🔎 A investigação do Ministério Público apura uma suposta rede de lavagem de dinheiro, corrupção e infiltração da facção criminosa no transporte público. Nesta quinta-feira (17), a operação cumpriu 18 mandados de busca e apreensão e 16 de prisão temporária. Entre os alvos está o ex-vereador e ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo Milton Leite (União Brasil), apontado pelos investigadores como "dono de fato" da Transwolff. Ao todo, 12 das 22 empresas que operam o sistema municipal de ônibus são citadas na investigação. Nesta fase da operação, porém, apenas pessoas ligadas à A2 Transportes e à Transwolff foram alvo das medidas cautelares. "Salta aos olhos que as investigações apontam que 12 das 22 empresas de transporte operando o sistema de transporte coletivo da capital são, em tese, controladas pelo PCC", escreveu o desembargador Sérgio Ribas na decisão que autorizou a operação. As empresas citadas na investigação são: Viação Transcap Transportes (atual Bless); Alfa Rodobus Transportes; Transwolff Transportes; A2 Transportes; Imperial Transportes; Move Buss Transportes; Pêssego Transportes; Allianz Transportes (atual Allibus); Transunião Transportes; Qualibus Transportes (atual UPBus); Norte Bus Transportes (integra o Consórcio Transnoroeste); Spencer Transportes (integra o Consórcio Transnoroeste). Onde atuam empresas de ônibus suspeitas de ligação com o PCC Arte/g1 Como funciona o sistema Na capital paulista, as linhas de ônibus são divididas em três grupos: As linhas estruturais são responsáveis pelos grandes deslocamentos pela cidade; Já as linhas de articulação regional ligam diferentes áreas de uma mesma região e ajudam o passageiro a acessar corredores, terminais e linhas estruturais; O terceiro grupo é formado pelas chamadas linhas de distribuição local, voltadas principalmente para deslocamentos dentro do próprio bairro ou entre bairros vizinhos. Segundo os dados analisados pelo g1 e pela TV Globo, todas as linhas de distribuição local da cidade são operadas por empresas citadas na investigação. São justamente as linhas que atendem os trajetos mais curtos do sistema e concentram a circulação de passageiros nas regiões periféricas da capital. Dados da SPTrans mostram ainda que as empresas atuam em quase todas as regiões da cidade. Há operação em bairros das zonas Norte, Sul, Leste e Oeste. A única exceção é a região central. Além de operarem a totalidade dessas linhas, as empresas também respondem por uma parcela significativa do transporte de passageiros em São Paulo. Em agosto de 2026, as 12 empresas transportaram 72.947.123 passageiros. No mesmo período, o sistema municipal registrou 177.902.234 embarques. Isso significa que as empresas citadas na investigação responderam por cerca de 41% de todos os passageiros transportados pelos ônibus da capital naquele mês. LEIA TAMBÉM: Investigação da PM liga Milton Leite, ex-presidente da Câmara de SP, a empresa de ônibus suspeita de elo com PCC Após 27 anos na Câmara de SP, Milton Leite não registra nova candidatura para vereador Investigação diz que Milton Leite é 'dono de fato' da Transwolff Empresa A2 é investigada por suposta ligação com o PCC. Reprodução Avaliação das empresas Indicadores de qualidade produzidos pela SPTrans mostram que as empresas de ônibus citadas na investigação não apenas dominam o transporte nas periferias paulistanas, como também concentram alguns dos piores desempenhos operacionais da cidade. Das últimas dez posições do ranking geral do Índice de Qualidade do Transporte (IQT) mais recente, oito são ocupadas por concessionárias do Sistema Local de Distribuição. O pior caso é o da A2 Transportes, que teve IQT médio de 58,11 pontos e aparece na última colocação entre as 40 operadoras. Pela classificação da própria SPTrans, índices abaixo de 60 são considerados "ruins". Alvo de mandado de prisão, o proprietário da empresa, Paulo Korek, é suspeito de atuar como "testa de ferro" do PCC e defender os interesses da facção no ramo dos transportes. Nesta quinta, a prefeitura anunciou que estuda uma intervenção na A2. Outras cinco empresas responsáveis por linhas que conectam bairros periféricos ao restante do sistema de transporte tiveram avaliação considerada regular pela SPTrans – entre 60 e 75,99 pontos – no levantamento realizado no primeiro semestre de 2026. Algumas delas aparecem mais de uma vez no ranking, pois têm mais de um contrato com a prefeitura e operam em diferentes áreas da cidade. Entre elas estão a Alfa Rodobus – que neste ano assumiu a operação concedida inicialmente à UPBus, investigada por lavagem de dinheiro para o PCC – e a Transunião, que, em junho, foi alvo de uma outra operação por suposto elo com a facção. Além disso, a própria SPTrans aparece entre as piores colocadas no ranking, considerando a operação que herdou após intervenção na Transwolff por causa de acusação de infiltração da organização criminosa. Milton Leite é alvo de operação contra infiltração do PCC no sistema de transporte de SP Transwolff A Transwolff — com outra empresa de ônibus, a UPBus — já tinha sido alvo de outra operação, a Fim da Linha, deflagrada em abril de 2024 pelo MP-SP por suspeita de lavagem de dinheiro e favorecimento ao PCC. As investigações apontam que o dinheiro usado para aumentar o capital da Transwolff poderia ter origem ilícita — ou seja, os recursos seriam provenientes de atividades do PCC. O esquema envolveria uso de “laranjas” e “CNPJs fantasmas”, facilidades de empresas de fachada para ocultar as verdadeiras origens dos valores, algo típico de lavagem de dinheiro. Em função dessas suspeitas, a Prefeitura de São Paulo rescindiu os contratos e assumiu o controle da Transwolff e da UPBus em dezembro de 2024. O prefeito Ricardo Nunes (MDB) afirmou que não há nenhum risco de ligação com o PCC. "Fiz a intervenção em 2024 na TrasWolf e caducidade, esse empresa é administrada pela prefeitura", afirmou. Milton Leite Milton Leite (União Brasil), ex-presidente da Câmara de SP Paulo Gomes/TV Globo Milton Leite não foi encontrado pelos policiais que foram à sua casa para cumprir o mandado. Segundo apurou a GloboNews, a polícia passou a considerá-lo foragido diante das circunstâncias encontradas no imóvel. Policiais permanecem no local para cumprir mandado de busca e apreensão. De acordo com informações obtidas durante a diligência, Milton estava em casa até a tarde de quarta-feira (16). Uma funcionária relatou aos policiais que ele saiu à noite para um compromisso de campanha. Também foram presos Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, e Danilo Marco Morgado Silva, ex-candidato à Prefeitura de Praia Grande e atual candidato a deputado estadual. Em nota, Milton Leite afirmou que está viajando e negou estar foragido. “Estou em viagem, não estou foragido, e vou me apresentar às autoridades em até 24 horas. Vou provar minha inocência em todas as acusações”, declarou o ex-vereador. Ao todo, a operação busca cumprir 16 mandados de prisão e 18 de busca e apreensão em São Paulo, Santana de Parnaíba, São Bernardo do Campo, Diadema, Santos, Praia Grande e Cubatão. Buscas na casa de Milton Leite TV Globo Investigação aponta influência de Milton Leite no setor de ônibus Segundo apuração da GloboNews, a investigação aponta que decisões estratégicas relacionadas a empresas de transporte suspeitas de ligação com o PCC dependeriam do conhecimento ou da aprovação política de Milton Leite. A conclusão foi sustentada, segundo investigadores, pela análise de interceptações envolvendo operadores e por elementos de outras investigações relacionadas ao papel decisório do ex-vereador. No pedido que embasou a operação, Milton Leite é citado como responsável direto pela operação de algumas das empresas que, segundo a investigação, seriam controladas pela facção. O documento também menciona declarações de policiais militares, prestadas em procedimento no Tribunal de Justiça Militar, segundo as quais ele seria o dono de fato da Transwolff. Milton Leite deixou a vida pública no ano passado, depois de sete mandatos como vereador e de ter presidido a Câmara Municipal por quatro vezes. Atualmente, ele é presidente do União Brasil na cidade de São Paulo. Em julho, foi eleito presidente estadual da Federação União Progressista (UP), formada pelo União Brasil e pelo Progressistas (PP). A Operação Vectura Corrupta é realizada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes de Mogi das Cruzes, com apoio do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo. Histórico das investigações O avanço de hoje é um desdobramento direto de duas operações anteriores. Em abril de 2026, a Polícia Civil e o Ministério Público realizaram a Operação Contaminatio, focada na estrutura de uma fintech gerida pela facção. O objetivo do grupo era usar a empresa de tecnologia financeira para se infiltrar em prefeituras e assumir o gerenciamento do recebimento de tributos, taxas e o contato direto com os munícipes. Naquela etapa, a investigação desarticulou a rede de doleiros e de operadores de criptoativos usada na lavagem do dinheiro e prendeu um ex-vereador de Santo André. Toda a apuração teve início em agosto de 2024, com a Operação Decurio. Após a apreensão de 30 quilos de drogas em Itaquaquecetuba, os investigadores extraíram dados do celular da mulher de um dos líderes da facção. As informações do aparelho levaram à identificação e prisão de chefes da chamada "Sintonia Final" e à descoberta da fintech, que chegou a movimentar cerca de R$ 8 bilhões. Foi também na primeira fase que surgiram as evidências iniciais do braço político da organização, com a identificação de campanhas de vereadores patrocinadas pela facção e o envolvimento de servidores comissionados em prefeituras do estado.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2026/09/17/empresas-suspeitas-de-ligacao-com-o-pcc-operam-todas-as-linhas-de-bairro-de-onibus-de-sp-e-transportam-41percent-dos-passageiros.ghtml


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