Djokovic diz que figueira brasileira é uma velha amiga que ajuda a curar feridas, mas história da árvore é outra
03/02/2026
(Foto: Reprodução) Fala de Djokovic sobre figueira apontada como brasileira gera debate fora das quadras
Um dos maiores tenistas do mundo, Novak Djokovic declarou durante o torneio Australia Open que mantém uma relação de amizade com uma figueira do Jardim Botânico de Melbourne, na Austrália. Segundo ele, a espécie que acredita ser brasileira o ajuda a curar feridas e a manter o equilíbrio emocional durante as competições. A declaração repercutiu nas redes sociais e levantou discussões sobre a presença da flora brasileira no exterior.
Apesar dos mais de 20 anos da relação do tenista com a árvore, a origem dela não é a que Djokovic acreditava. O próprio Jardim Botânico de Melbourne e um especialista em botânica esclareceram ao g1 que a figueira citada não é brasileira. Abaixo, o g1 explica a confusão e mostra que, apesar do erro, é sim possível que atletas de alto rendimento encontrem estratégias inusitadas de foco e desempenho emocional. Vale inclusive considerar uma figueira como uma velha amiga.
Novak Djokovic é um tenista profissional sérvio.
Reprodução/ Instagram
O que diz a ciência sobre a árvore
Segundo o Royal Botanic Gardens Victoria, não há exemplares da espécie Ficus cyclophylla, conhecida como figueira-brasileira, no jardim botânico de Melbourne.
“Achamos que Djokovic pode ter se confundido ao nomear a árvore como uma figueira brasileira, porque não temos essa espécie nos jardins”, informou ao g1 Tim Sansom, diretor executivo de Coleções Vivas do Royal Botanic Gardens Victoria.
A equipe do jardim acredita que a árvore citada pelo jogador seja, na verdade, uma Ficus macrophylla, conhecida como figueira-de-Moreton-Bay, uma das espécies de figueira mais comuns da Austrália. Atualmente, o jardim botânico abriga 39 exemplares dessa espécie.
O botânico José Rubens Pirani, professor titular do Instituto de Biociências da USP, explica que pode ser difícil diferenciar algumas espécies de figueiras. As figueiras pertencem ao gênero botânico Ficus, que inclui centenas de espécies espalhadas por regiões tropicais do mundo.
“A Ficus macrophylla é a espécie de figueira mais comum na Austrália e a sua copa alcança porte impressionante. Muitas figueiras têm características semelhantes, como raízes aéreas e a presença de látex (secreção leitosa nos ramos e folhas) ”, afirma.
De acordo com o docente, essas árvores também se destacam pelo papel ecológico. As flores ficam reunidas em estruturas chamadas sicônios, como o figo comestível e dependem de pequenas vespas para a polinização.
Conexão com a natureza
Para além da origem da espécie, especialistas explicam que a relação descrita por Djokovic faz sentido do ponto de vista psicológico, especialmente em contextos de alta performance.
O coordenador da pós-graduação em psiquiatria da Sanar, Saulo Ciasca, afirma que atletas de elite convivem com pressão constante por resultados, comparação permanente e grande exposição pública.
“Essas características se assemelham muito à lógica de performance dominante no mundo de hoje. Rituais e símbolos cumprem uma função psicológica importante de regulação emocional”, diz.
Segundo ele, esses vínculos funcionam como uma forma de criar previsibilidade em ambientes marcados pela incerteza. “Eles oferecem constância quando tudo depende de muitas variáveis. É um senso de algo que depende só de mim, quando a performance parece fora de controle”, explica.
Do ponto de vista da saúde mental, esse tipo de relação pode funcionar como uma estratégia conhecida como grounding, ou ancoragem no presente. A prática ajuda a focar a atenção no momento atual, reduzir a reatividade emocional e restaurar uma sensação de segurança interna.
O Jardim Botânico de Melbourne afirmou que os benefícios da conexão com a natureza independem da espécie. “Nós acreditamos na terapia das plantas. Realizamos sessões de forest therapy (prática terapêutica com imersão na natureza) e estudamos os benefícios da natureza para a saúde. Independentemente da espécie, os efeitos positivos de estar em contato com a natureza são os mesmos”, declara a instituição.
(*Estagiária, sob supervisão de Ardilhes Moreira)