Após cinco anos, família consegue na Justiça levar restos mortais de indígena morta por Covid para aldeia no AC: 'Luta incansável'

  • 18/05/2026
(Foto: Reprodução)
Família indígena consegue levar restos mortais de matriarca de volta à aldeia no Acre Após quase cinco anos de espera e uma longa batalha judicial, a família de Santa Batista Brandão Shanenawa, matriarca do povo Shanenawa que morreu após ser infectada com Covid-19 em 2020, conseguiu autorização da Justiça para transferir os restos mortais dela de Cruzeiro do Sul, interior do Acre, para a Aldeia Nova Vida, localizada na Terra Indígena Katuquina/Kaxinawa, em Feijó. No novo local, será feito um velório simbólico seguindo os costumes tradicionais do povo indígena. Tanto a remoção dos restos mortais como o ato fúnebre de Santa Batista estão previstos para ocorrerem no início de junho. 📲 Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Ao g1, o filho de Santa Batista, Francisco Francineudo Batista Brandão, de 52 anos, contou que ela morreu aos 90 anos, em julho de 2020, sendo uma das primeiras a serem infectadas na aldeia de forma grave. Na época, os pacientes com estágio avançado da doença, incluindo Santa Batista, foram transferidos para o Hospital do Juruá e, devido aos protocolos sanitários adotados durante a pandemia, muitos foram enterrados sem velório. A morte da matriarca ocorreu cerca de uma semana após ser internada. “Fizemos campanha, orações, nossas preces aqui, mas não foi possível que ela voltasse com vida para perto de nós. Não tivemos a dignidade de fazer um velório para ela. Foi muito doloroso perder nossa mãe daquela forma”, relatou. LEIA TAMBÉM: Mortes de indígenas idosos por Covid-19 colocam em risco línguas e festas tradicionais que não podem ser resgatadas Enfermeira, técnica, indígena e idoso morador de abrigo são os primeiros a tomar vacina contra Covid-19 no Acre Indígena e mais cinco são os primeiros a tomar vacina contra Covid-19 em Cruzeiro do Sul Família de Santa Batista conseguiu autorização da Justiça para transferir seus restos mortais para Aldeia Nova Vida, em Feijó, interior do Acre Arquivo pessoal Gastos e luta na Justiça Com quase 300 km de distância entre Feijó e Cruzeiro do Sul, a família viajava todos os anos para visitar o túmulo da matriarca em datas como Finados e o aniversário de morte dela. As despesas com transporte, hospedagem e alimentação chegavam a custar entre R$ 3 mil e R$ 4 mil por viagem. “Tínhamos que fazer um gasto muito grande para podermos acender uma vela para nossa mãe em Cruzeiro do Sul. Todos os anos a gente ia e arrecadamos [o dinheiro necessário] com os familiares, com os filhos, os netos para 25 a 30 pessoas poderem fazer esse trabalho de acender a vela para ela”, compartilhou. Desde 2020, os familiares tentavam autorização para levar os restos mortais de Santa Batista de volta ao território indígena. O primeiro pedido judicial, feito por Francineudo, foi negado em 2024 pois ainda não haviam se passado cinco anos do enterro. Após o prazo ser completado, em julho de 2025, um novo pedido foi feito e aceito pela Justiça acreana. “No início de abril deste ano eu recebi o alvará judicial que, para mim, foi uma luta tão grande, tão incansável de poder trazer da cidade de Cruzeiro do Sul, para a gente remover os restos mortais da Santa Batista aqui para Feijó”, disse. Para a cultura Shanenawa, Santa Batista deve ser enterrada próxima das pessoas com quem conviveu quando ainda estava viva Arquivo pessoal Reencontro espiritual Para a cultura Shanenawa, de acordo com Francineudo, sua mãe deve ser enterrada próxima das pessoas com quem conviveu quando ainda estava viva. Mãe de nove filhos, Santa Batista desempenhava um papel fundamental na comunidade como conselheira, pajé, parteira, artesã e a matriarca que ensinava falar a língua indígena. “Para nossa cultura, ela estava perdida. Ela foi enterrada longe do território, no meio de pessoas que não conhecia. Agora vai voltar para perto do nosso pai e do nosso povo”, afirmou. Santa Batista desempenhava um papel fundamental na comunidade como conselheira, pajé, parteira, artesã e matriarca que ensinava falar a língua indígena Arquivo pessoal Ao chegar na Aldeia Nova Vida, a família pretende realizar uma noite inteira de velório simbólico, com rezas, rituais tradicionais e uma grande refeição para a comunidade, atendendo a um pedido feito pela própria Santa Batista antes de morrer. “Ela dizia que no velório dela queria muita comida para as pessoas que fossem se despedir. Não queria café e bolacha, queria sopa e janta para os convidados. Nós vamos cumprir esse desejo dela”, descreveu. Para o povo Shanenawa, segundo Francineudo, o retorno da matriarca à aldeia representa não apenas uma despedida que não pôde acontecer durante a pandemia da Covid-19, mas também um reencontro espiritual e cultural com o território e os ancestrais. “Nós queríamos que ela fosse enterrada ao lado do meu pai que morreu em 2002. Se eu morresse hoje, morreria feliz porque vou conseguir trazer o corpo da minha mãe para perto do meu pai onde ela poderá descansar pela eternidade”, declarou com emoção. Retorno da matriarca à aldeia representa um reencontro espiritual e cultural com o território e os ancestrais Arquivo pessoal VÍDEOS: g1

FONTE: https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2026/05/18/apos-cinco-anos-familia-consegue-na-justica-levar-restos-mortais-de-indigena-morta-por-covid-para-aldeia-no-ac-luta-incansavel.ghtml


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