Insulina, sensores e correções durante o jogo: como Zverev administrou a diabetes até o título de Roland Garros

  • 09/06/2026
(Foto: Reprodução)
Insulina, sensores e correções no jogo: como Zverev administrou a diabetes até o título Três anos atrás, naquele mesmo saibro de Paris, um fiscal disse a Alexander Zverev que aplicar insulina em quadra soava estranho. O tenista alemão, que convive com diabetes tipo 1 desde a infância, respondeu que, sem aquela dose, sua vida estaria em risco. No domingo (7), Zverev voltou à quadra Philippe-Chatrier, venceu o italiano Flavio Cobolli em cinco sets e conquistou o primeiro título de Grand Slam de uma carreira de 13 anos. O gesto que um dia pareceu suspeito ajuda, agora, a explicar a vitória. O diagnóstico veio cedo. Ele tinha quatro anos quando o pâncreas deixou de produzir insulina —o hormônio que leva o açúcar para dentro das células— e a família ouviu de médicos que o menino dificilmente seria um atleta de elite. Por anos, Zverev escondeu a condição, com receio de ser barrado nas competições de base. Só em 2022 decidiu falar abertamente e fundou, em Hamburgo, uma instituição que ajuda crianças com diabetes tipo 1 e fornece insulina em países de baixa renda. Alexander Zverev, campeão de Rolland Garros Reprodução/Instagram Uma maratona metabólica Para medir o tamanho do feito, é preciso olhar o que acontece dentro do corpo ao longo das horas de jogo. Uma partida de tênis pode passar de quatro horas, e o esforço exige um equilíbrio que, em quem tem diabetes tipo 1, não se faz sozinho: sem a insulina que o pâncreas deixou de produzir, cada oscilação do açúcar no sangue depende de doses calculadas de fora. O endocrinologista Thiago Artioli, responsável pelo Ambulatório de Diabetes Tipo 1 da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, descreve um percurso de três tempos. No início do exercício, os músculos passam a capturar glicose do sangue por uma via que dispensa a insulina, e a glicemia pode despencar mesmo que o atleta tenha se medicado pouco antes. À medida que a partida avança, o esforço e a tensão emocional disparam hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina, que estimulam o fígado a liberar açúcar no sangue —uma hiperglicemia passageira, logo corrigida com novas doses. No fim, e nas horas seguintes, o glicogênio, reserva de açúcar do fígado, se esgota, e o risco se inverte mais uma vez: pode sobrevir uma hipoglicemia tardia, de 6 a 24 horas após o pico de esforço, às vezes durante o sono. A esse vaivém somam-se a desidratação e a reposição constante de carboidrato. Quanto mais longa a partida, mais glicose o corpo consome e mais sensível à insulina ele se torna —de modo que a dose certa para o início pode ser demais para o fim, e o ajuste passa a se medir em frações de unidade, em que um pequeno erro de cálculo já altera o rendimento. Nos extremos, dois perigos. A hipoglicemia, a queda do açúcar abaixo de 70 miligramas por decilitro, costuma se anunciar com tremor, suor intenso, confusão mental e batimentos acelerados, e exige a ingestão imediata de carboidrato. No sentido oposto, a hiperglicemia traz náusea, fadiga acentuada e cetonas que já aparecem em exames de sangue ou urina; somada à desidratação, pode evoluir para uma cetoacidose: sem insulina suficiente, o organismo passa a queimar gordura como combustível, e o acúmulo dessas cetonas ácidas no sangue se torna uma emergência que pode ser fatal. Manter a glicose na faixa certa, portanto, é mais do que uma questão de segurança. Um nível estável preserva a concentração, a coordenação e a clareza para decidir —os mesmos atributos que separam um ponto ganho de um perdido. Entre um abismo e outro, resume o médico, Zverev não é uma exceção da natureza, e sim o retrato do que disciplina, tecnologia e cuidado médico tornaram possível. O sensor que antecipa a queda O tenista Alexander Zverev Reprodução/Instagram Se, há algumas décadas, controlar essas oscilações durante uma competição de alto rendimento era impossível, hoje a tecnologia tornou a tarefa mais previsível. No centro dessa mudança está o monitoramento contínuo da glicose: um sensor adesivo preso ao braço, com um filamento finíssimo posicionado logo abaixo da pele. Em vez de medir o açúcar no sangue, ele lê a glicose no líquido intersticial —o fluido que banha as células— de minuto a minuto, dia e noite. A leitura substitui a picada no dedo e chega em tempo real a um aplicativo, que pode ser compartilhado com o médico e com a equipe do atleta; cada sensor funciona por cerca de 14 dias antes de ser substituído. Como afere o fluido entre as células, e não o sangue, o número traz um pequeno atraso em relação à glicemia real —diferença que aumenta quando o açúcar sobe ou cai depressa, como acontece em quadra. Para o endocrinologista Clayton Macedo, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e médico do Hospital Israelita Albert Einstein, o maior trunfo do aparelho não é o valor que ele exibe, e sim a seta de tendência: antes mesmo de a glicose cair, o sensor mostra para onde ela caminha. É o que permite agir a tempo, ainda nos intervalos entre os games. O monitor também dispara alarmes quando o açúcar ameaça ultrapassar os limites, inclusive durante o sono, quando a hipoglicemia é mais perigosa. A leitura orienta cada dose. Uma insulina basal de ação prolongada sustenta o nível ao longo do dia, enquanto uma versão ultrarrápida corrige os picos conforme o sensor aponta. Nos sistemas híbridos, os mais avançados, o monitor se comunica diretamente com uma bomba de infusão que ajusta sozinha a liberação do hormônio —o mais próximo que a medicina chegou de um pâncreas artificial. Fora das quadras, é provável que Zverev use uma dessas bombas; durante o jogo, porém, o equipamento atrapalha os movimentos e costuma ser desconectado, o que o obriga a repor insulina à mão nas pausas, sempre respeitando o intervalo entre uma aplicação e outra. Bem conduzida, resume Macedo, a diabetes deixa de ser um teto e pode virar alavanca: com tecnologia, acompanhamento e disciplina, um atleta com diabetes chega a ter saúde melhor do que a de uma pessoa sem a doença, porém sedentária. 'Parece que estou me dopando?' O avanço técnico, no entanto, ainda divide espaço com a desinformação. O episódio de 2023 não foi isolado. Naquela edição de Roland Garros, durante a vitória sobre o búlgaro Grigor Dimitrov, Zverev quis aplicar insulina numa troca de lado e foi impedido: o fiscal afirmou que ele deveria deixar a quadra —o que contaria como uma de suas pausas para o banheiro. O tenista reagiu. Lembrou que dispõe de apenas duas dessas pausas por partida, mas que, num jogo de cinco sets, pode precisar de quatro ou cinco aplicações. "O que parece? Que eu estou me dopando?", devolveu, em entrevista coletiva. A insulina figura entre as substâncias controladas pelas regras antidoping, e Zverev tem autorização da International Tennis Integrity Agency (ITIA), a agência de integridade do esporte, para usá-la durante as partidas. As doses múltiplas que ele relata nas redes sociais são esperadas, afirma o cardiologista e especialista em medicina do esporte Bruno Sthefan: em provas longas, corrigir a glicose ao longo do jogo demonstra controle da doença, não uma complicação. “Faltou informação a quem organizava a competição. Árbitros e fiscais deveriam saber que ali estava um atleta com diabetes tipo 1, que precisaria checar a glicemia e, em algum momento, aplicar insulina. Diagnosticada na infância, a doença ainda carrega a imagem de uma vida fadada a limites, e muitos pacientes acabam por se limitar sozinhos”, explica o médico. Um século depois da insulina A soma de monitoramento contínuo, insulinas modernas e acompanhamento próximo fez do diagnóstico algo que deixou de ser uma sentença, segundo o cardiologista Elzo Mattar, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp) e diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC). Nem sempre foi assim. Até o início da década de 1920, um diagnóstico de diabetes tipo 1 era, quase sempre, uma sentença de morte: sem insulina, crianças e jovens raramente sobreviviam mais do que alguns meses, e o melhor que a medicina oferecia eram dietas de privação extrema, que apenas adiavam o desfecho. A virada veio em 1921, quando os pesquisadores Frederick Banting e Charles Best isolaram a insulina na Universidade de Toronto; meses depois, o adolescente Leonard Thompson, de 14 anos, tornou-se o primeiro paciente tratado com sucesso. O que antes matava em pouco tempo tornou-se uma doença crônica, controlada com a aplicação diária do hormônio. Um século depois, essa mesma dependência de insulina —agora somada a sensores que leem a glicose minuto a minuto— levou ao topo do tênis um menino que ouvira, ainda criança, que jamais chegaria lá.

FONTE: https://g1.globo.com/saude/noticia/2026/06/09/insulina-sensores-e-correcoes-durante-o-jogo-como-zverev-administrou-a-diabetes-ate-o-titulo-de-roland-garros.ghtml


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